Diálogo com Rosas
Noite de chuva, mas cheia de luz e esperança, "Rosas em janeiro?", talvez, mas
sem questionar colhi. Encantei-me com a sua natureza, numa mistura de cheiros
e cores que maquiavam a sua fragilidade, segurei no seu caule aparentemente
com poucos ou suaves espinhos e levei-a na mão, firmemente e sem receio, de
maneira natural, delicada e feliz. Acolhi-a, estimei-a e reguei-a, observando-a
florescer com entusiamo, carinho e gratidão. Guardei-a junto de
mim. Reservada, mas firme na sua presença, com o tempo tornou-se aos meus
olhos e sentidos cada vez mais bela e então decidi brindar. Naquele lugar, num
ambiente acolhedor e convidativo para partilha de um bom momento, ao sabor
da cozinha italiana que nos satisfazia, só faltava um bom "Diálogo" para
completar. E assim foi, enriqueci o momento com uma garrafa de Diálogo
Tinto, que harmonizou perfeitamente com a massa fresca e risoto com azeite
trufado e assim preencheu o silêncio, que embora cativante pedia para ser
quebrado numa descoberta em palavras trocar.
O rótulo relembrava os cartoons em quadradinhos nos jornais onde nela
destaquei a frase "in vino veritas" ou seja, no vinho está a verdade, pareceu-me adequado, pois o que sentia era verdadeiro. No copo um vinho de cor rubi
intenso, lágrima discreta e no nariz um cheiro a fruta vermelha, de amoras
certamente, taninos redondos que se encorpavam e aveludavam na língua, com
uma acidez equilibrada. Persenti a sua doçura que lhe deu um final de boca
longo e persistente, despertando a vontade de repetir e querer descobrir mais.
Fora classificações, preços, medalhas, acredito que o melhor vinho é aquele que
se gosta, e sim deste gostei e deveras acrescentou algo em mim, à flor e àquele
momento.
Trouxe comigo essa memória sensorial, alimentei-a e dei valor ao valor,
fazendo crescer esse êxtase e prolongando-o no tempo em busca da verdade.
Nessa descoberta cresci, aventurei-me, empenhei-me, dediquei-me, partilhei,
sorri e chorei; é a Vida, foi a Rosa, foi o Vinho... Momentos que quero e desejo
repetir e sentir, não só de lembranças, mas vive-los. Com outro vinho ou flor,
mas nesta apaixonante Vida.

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